• Ivan Sousa

Nascimento da Filosofia

A passagem do mito ao logos



A principal transformação que a Filosofia introduz na vida espiritual da Antiguidade é a passagem do mito ao logos como forma típica de uma experiência intelectual.

Os poemas  de Homero e de Hesíodo representam o universo de modo mitológico.

A vida na Terra explica-se com a interferência dos deuses olímpicos nas ações humanas, com ações milagrosas, transformações mágicas etc. Toda representação mitológica contém esses componentes. A forma filosófica de explicação é, por sua vez, totalmente oposta.  Para a origem de toda a existência ("arché"), Tales aponta a água e não algum deus (nem o deus da água, mas ela mesma).


A despersonificação da natureza e do cosmo é um indicador irrefutável da passagem do mito ao logos. Em Tales – tomado, aqui, no seu mérito de ser o primeiro filósofo –, a gênese do mundo não inclui nenhum oceano ou pseudônimo; a gênese  é a água – um elemento natural. Não é o milagre, mas a natureza que está por trás do mundo como princípio.


Enfocar o logos das coisas significa revelar a sua essência. Na Filosofia, o caminho para a essência das coisas é mais complicado e longo do que na Mitologia. O mito como veículo figurativo é de mais fácil entendimento, o que o faz mais próximo da vida, mais "verdadeiro". Por exemplo, conforme o mito de Pandora, a desgraça surtou entre o gênero humano como vingança pelo fogo que Prometeu roubou. O irado Zeus fechou, em uma caixa, todas as desgraças possíveis e enviou Pandora para levá-las aos humanos. A curiosidade forçou Pandora a abrir a caixa, e, logo em seguida, todas as desgraças se derramaram sobre os homens. Assustada, Pandora logo fechou a caixa e, no seu fundo, sobrou apenas a esperança.


A Filosofia considera os problemas da infelicidade humana de um modo completamente diferente. Ela busca as causas que engendram a infelicidade, os meios para a sua superação e as condições em que a infelicidade não poderia ocorrer. O logos assume o papel de protagonista na incessante busca, no gênero humano, da felicidade, algo que o mito tinha negado.


Todavia, não se deve ignorar que a Mitologia é a pré-condição da Filosofia. A análise da relação entre mito e logos envolve duas concepções antagônicas. A primeira afirma que, entre a Mitologia e a Filosofia, existe um abismo insuperável. A segunda afirma que a Mitologia e a Filosofia possuem conteúdo idêntico. Ambas retratam os fenômenos naturais, a vida do homem, o cosmo e o mundo, porém, diferem-se pela forma por meio da qual explicam essas questões. A forma mitológica consiste na representação mitológica.


A Filosofia emprega vocabulário próprio, termos e conceitos;

a sua  explicação é abstrata e não figurativa como a da Mitologia. Aristóteles parece estar de acordo com a segunda afirmação ao dizer que aqueles que criaram a Mitologia foram os primeiros filósofos. Uma análise detalhada da produção mitológica realmente mostra um vínculo estreito com a  Filosofia. Por exemplo, a Teogonia, de Hesíodo, possui uma importância significativa para a formação das ideias filosóficas e para a passagem do mito ao logos. A sua representação mitológica de"caos" pode ser entendida como o primordial espaço cósmico vazio cheio de vigor criativo em que se cria o universo. Essa representação mitológica no âmbito filosófico é entendida como "princípio".


A representação de Eros como o mediador entre o amante e o amado, entre o criador e a criatura etc. pode ser aludida, na Filosofia, ao termo  "causalidade". A representação da Terra (Gaia), da qual tudo se engendra, pode ser aludida, na Filosofia, ao substrato geral da natureza, isto é, ao termo"matéria". Todos esses exemplos nos dão margem para pensar na Mitologia e na Filosofia em uma ligação íntima, ao menos no que diz respeito ao nascente pensamento filosófico de que iremos tratar a seguir, ou seja, o pensamento do período chamado pré-socrático.

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